Tenho saudades de acordar tarde!
… Acordar tarde nos meus doze/treze anos…
De sair à rua depois de um toque insistente de campainha, acompanhado por uns berros – “Sandro! SAAANDROOOO!”
Sinto falta de pegar na bicicleta e ir para a rua. De passar o resto da manhã de um lado para o outro, a inventar brincadeiras onde a bicicleta era ora um avião, ora uma nave espacial, ou “apenas” uma mota. Nunca, mas nunca, uma mera bicicleta.
Sinto saudades daquela angústia que sentia enquanto procurava saber as horas, para não perder a noção de quando tinha de ir almoçar.
Depois do almoço era aquele não fazer nada até passar o maior calor… sentado no sofá… ok! DEITADO no sofá, a ver mais um episódio do “Verão Azul” (o mítico), até chegar a hora de voltar a descer. O mesmo frenesim de campainhas, de gritos…
Agora é o futebol… a sirumba… a macaca… as corridas de carrinhos pelos passeios, ou as pistas feitas com os devidos obstáculos para as caricas. Lembro-me que construíamos autênticas cidades. Perdíamos horas a construir casas, vivendas, lagos, prédios, a fazer estradas! Tudo com tacos que íamos “pedir emprestado” nas obras perto de casa. O bairro crescia a olhos vistos na altura.
-“É magnífico o que eles fazem”- diziam os pais ao chegar do trabalho!
E era mesmo!
Depois era a hora de subir para tomar banho e jantar.
Podia-se pensar que o dia terminava aí… mas não para nós. Não para os miúdos do 107 e 108.
A seguir ao jantar, desciam todos… ou quase todos. Mas mesmo os que não podiam, por alguma razão (talvez por terem demorado cerca de uma hora a subir depois de chamados para jantar, e serem castigados por isso) – lembram-se dos castigos?
Mas dizia eu, mesmo esses ficavam nas janelas e entravam na brincadeira. Eram os cúmplices de quem se escondia. Sim.. À noite a brincadeira era sempre a mesma – AS ESCONDIDAS! Isto com uns vinte miúdos! Era Incrível!
Os das janelas eram os cúmplices, como já disse. Os comparsas. Iam dizendo a quem se escondia se podiam sair do esconderijo ou não. Iam fazendo sinais… tudo muito bem feito!
Engraçado era ver alguns, de banho recentemente tomado, a enfiarem-se debaixo de carros, dentro das obras, deitados no chão por trás de montes de areia… Éramos assim!
A vida era simples… Nós felizes!
“-Sandro! Sandro vem para casa! São horas de deitar e amanhã há mais.”
E havia mesmo…
Tenho de ir.
A minha mãe chamou. Até amanhã…